O que acontece é que no momento só consigo pensar em uma coisa e tenho debatido isso há alguns dias já. Assim, no meio de tantas maratonas que já fiz com 5,6 filmes num mesmo dia, cheguei ao Batman. E não estou falando do Cavaleiro das Trevas que está em cartaz mas do Batman de 89 do Tim Burton.

Aquele Batman com Michael Keaton como o morcego e Jack Nicholson como Coringa. Todos comentam das diferenças entre o Coringa de Heath e o de Jack. Mas isso é comparar água e vinho. São duas concepções diferentes da personagem. Porém, os dois são igualmente maníacos. Um mais colorido e o outro mais obscuro. Funciona com o contexto geral do filme e a concepção do diretor. Burton é um obscuro engraçadinho e Nolan é um obscuro quase depressivo.

Foi esse filme de 89 que apresentou o Batman para mim. E tenho sido fã desde então. Acompanhei a evolução da franquia até ela quase morrer com George Clooney e a idéia insana de colocar o Robin. E quando ressurgiu com Batman Begins, notava-se claramente que o sr. das trevas deveria ser levado a sério agora. E mais ainda com o último filme da série que está fadado a bater inúmeros recordes.

Com Christian Bale, o Batman me pareceu maior, mais sério e mesmo quando estava um tanto inseguro ele me pareceu obstinado. Mérito dos roteiristas pois um personagem como esse não pode ter frases soltas. Ele fala pouco mas fala o essencial. Um tanto diferente do Coringa que várias vezes “explica” certas coisas. O Coringa tem falas pontuadas com tiradas sensacionais e até profundas em seu sentido geral. O Batman não precisa disso. Ele É o filme.

Digo isso porque ouvi muitos comentários sobre Heath Ledger roubar a cena, sobre sua atuação excepcional e, até certo ponto, eu concordo. A atuação do ator é maravilhosa e faz com que o filme ganhe outro ritmo. Sem dizer que deve ser uma das melhores de Heath juntamento com Brokeback Mountain.

A atriz que interpreta Rachel – Maggie Gyllenhal tem mais força na tela do que Katie Holmes e nota-se que é uma atriz e não uma mulher bonita que quer ser atriz. Até porque ela não é bonita e a Rachel foi criada apenas para nos explicar algumas situações e não para ser uma personagem de ação.

E há ainda Harvey Dent. O Duas Caras aparece com uma história fantástica. Quase cheguei a pensar que o filme era mais sobre ele versus o Coringa do que o próprio Batman. É a história do homem bom e moralista que cai na desgraça. A história da sociedade que conhecemos. A história do mundo. Harvey Dent demonstrou que precisamos de algo mais do que moral para que as mudanças ocorram. E esse é um complemento para o que o Batman significa.

O Batman não tem super poderes. Ele não é modificado geneticamente. Ele não explode coisas só de olhar para elas. Ele é, apenas um homem. O único poder dele é financeiro.

A Gotham que aparece no filme está na lama, no meio de tantos corruptos e mafiosos. O Batman aparece para mostrar que isso pode acabar. Ele aparece para nos dizer que se uma pessoa começar, a mudança é possível. Após o aparecimento do Batman Gotham passa a lidar com diversas pessoas se fantasiando para combater o crime. Pessoas comuns que se inspiraram nesse “justiceiro”.

Tirando o entretenimento do filme, é uma boa aula sobre a sociedade em si. Por causa do Batman surgiu o Harvey Dent. Por causa do Batman também surgiu o Coringa. E por causa do Coringa surgiu o Duas Caras. Em última instância, o Batman criou o Coringa e o Duas Caras e sempre estará ligado a esses dois personagens. O bem está sempre ligado ao mal. Prova de que a sociedade cria seus próprios males. Somos nós quem desenvolvemos todas as nossas violências, de uma forma ou de outra. Seja votando em quem não se importa, seja aceitando propina, pagando proprina, deixando passar deslizes de nossos políticos. Nós aceitamos. E Gotham também aceitava….até aparecer essa figura vestida de morcego que mostrou que mesmo que piore, temos que começar por algum lugar.

Quanto ao filme em si: qualquer filme que me faça divagar tanto sobre a sociedade merece nota 15.

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